segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A arte do não-entendimento

Não entendo a arte do ator. Jamais a entenderei. Um ser que se pretende duas naturezas. Alguém conhece sua natureza? Como criar uma segunda natureza, totalmente verdadeira, se não conhece nem a si próprio? Que mágica estupidez tal ser se propõe? Como fazer não soar falso tudo aquilo que não é verdadeiro e fazer ser vida o artificial?
Depois que lembro da sensação de estar em cena tenho pena de quem jamais pisou e jamais pisará num palco. Contraditoriamente, todo o dia luto contra o arrependimento da escolha. Profissão: ator. Treinamento, textos decorados, estudos, ensaios, ensaios, ensaios, projetos, ensaios, ensaios, lesões corporais, preocupações, falta de verba e de apoio, ensaio, ensaio, correria, insanidade (a insanidade é uma opção minha, não é obrigatória à profissão), ensaios. Tudo para estar ali, uma hora ou pouco mais.
Há algum tempo me irrito demasiadamente quando chamam “teatro” a qualquer tipo de fingimento, mentira, falsidade. O ator, do contrário, não mente: é mais verdadeiro em sua segunda natureza do que na natureza cotidiana. Diante do público não há mentira que se sustente, ele está ali, todos os olhos sobre ele, não há como mentir e sair impune. Não existe mau ator, e sim o não-ator. Ao que não se entrega não se pode chamar ator. O que não vive cada milésimo de segundo em cena não é ator. O que mente, jamais poderá ser assim chamado. Ser ator não é um compromisso com a verdade, é um pacto com a vida-em-cena. Um segundo no palco sem vida e não há mais vida. Fato é que nem todos que pisam num palco são atores. A beleza da entrega não se vê todo o dia. Paga-se e não se vê. E paga-se bem. Daí compreendo a insatisfação do público que vai ver uma comédia e vê, nada além de, pessoas contando coisas engraçadas. Todos podem contar coisas engraçadas, mas no palco, só o ator vive coisas engraçadas. Mas piores são as tragédias: pessoas não convencendo nem a elas mesmas do que fazem. Nada mais constrangedor. E nada pior do que constranger o público. Mas há quem faça. E são muitos. Talvez eu mesma também faça. Em muitos momentos não fui atriz. Foi constrangedor.
Às vezes sofro pela ignorância geral que se tem do que é um ator, de como ele se constrói, de como são árduos os caminhos da tal segunda natureza. E não falo de sacrifícios sobrenaturais ou psicologia barata: falo simplesmente da disciplina, da ética, do rigor e do desprendimento. Interpretar é fácil, difícil é não-interpretar e simplesmente ser. Simplesmente, pois a simplicidade é a mais difícil das conquistas - frase recorrente em meus textos e talvez a única verdade. Nem sei por que escrevo isso.
Estou finalmente voltando ao teatro. Isso alivia a tristeza? Não sei, mas me desperta tensões, sensações, nem sempre agradáveis. Uma delas é a de jamais entender essa arte. Mas citando Clarice “viver ultrapassa qualquer entendimento”... então, enquanto eu conseguir viver, o resto é apenas vida.
Mas pra não fugir do tema do blog, que são filmes, aqui vão dois filmes sobre teatro: "Adeus minha concubina" (Ba wang bie ji), filme chinês de 1993 dirigido por Chen Kaige e "A viagem do capitão Tornado" (Il Viaggio de Capitan Fracassa, 1990, Itália/França) uma das mais belas películas de Ettore Scola, na minha humilde opinião. Duas diferentes realidades em duas belíssimas produções.
E um desabafo.
Beijos


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Imagens constantes

Sempre tem algumas imagens, sons, palavras, enfim, memórias sensoriais que não saem da nossa cabeça. Elas vão e voltam e, muitas vezes, não sabemos o motivo, mas são constantes. Já havia escrito sobre uma imagem que me perseguia desde a infância, da mulher loira de Um corpo que cai. Hoje, não sei bem por que razão, trago uma imagem que me segue desde a adolescência, do filme de um dos meus cineastas favoritos, Luchino Visconti: Morte em Veneza (Death in Venice,1971). Sempre carrego a imagem de ruas estreitas de paralelepípedos, além de, impressionada pelo filme, ter sonhado já com tais lugares nunca por mim visitados. Até hoje tenho essas imagens, em tons de azul. Tudo culpa da delicadeza de Visconti ao tratar das paixões, sempre violentas.
É simplesmente incrível a forma que Visconti conduz o filme, baseado na obra do também genial Thomas Mann. Confesso que esse filme mudou alguma coisa na minha maneira de perceber as coisas. Somos totalmente condenados ao saber racional, intelectual, onde as coisas tem que ser explicadas através de frases lógicas. Visconti consegue, através de suas imagens, de seu enquadramento, do tratamento aos personagens, nos trazer um "pensamento sensorial", uma obra que atinge os sentidos de forma exacerbada. Os poucos diálogos do filme, o tom contemplativo do personagem é trazido à cena de forma magistral.
Há pouco li sobre o filme num blog (http://multiplot.wordpress.com/2008/07/17/morte-em-veneza-luchino-visconti-1971-2/) e havia o comentário de um leitor "Visconti quis dizer muito e não disse nada". Penso exatamente o contrário. Um filme que talvez não se proponha a"dizer", mas certamente foi o filme que mais me tocou os sentidos e despertou outras formas de percepção, de relação com o mundo em imagens. O cineasta consegue nos mostrar que nem todo o "dizer" é intelectual, nem todo o "dizer" é apenas racional, que temos sim outros sentidos. É o que eu tenho a dizer: um filme para sentir, e jamais esquecer.
Percebi que não fiz sinopse alguma sobre esse filme, nem do filme de Hitchcock. Acho que não venho com outra intenção senão a de trazer algumas de minhas memórias através de filmes. Por isso esqueço da "história" dos filme, e me fixo mais em suas imagens, sensações. Talvez para tirar um pouco o peso do racional e sentir mais.
Mas fica a dica para ver ou rever essa bela obra de Visconti. Teria tanto pra falar, mas fico por aqui, pois segundo Mann "a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos".

Abraços em Veneza,
L.
Também indico esse artigo sobre o filme: http://www.contracampo.com.br/68/morteemveneza.htm


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Lembranças de infância

Hoje me bateu um saudosismo. Me perguntei o que restou daquela adolescente que, buscando lembranças de infância - mais especificamente de uma mulher loira caindo - redescobriu Hitchcock e, a partir de, Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, Billy Wilder, Godard, Glauber... começo então a me indagar sobre o que acontece com as nossas paixões, nossas pequenas obsessões quando chegamos à vida adulta? O cinema sempre foi, para mim, mais que uma paixão, mas uma forma de viver o inusitado, de viver o riso, o gozo, a intensidade de todas as sensações. Uma outra possibilidade de sofrer a vida. Há tempos venho sentindo falta da rotina de ver filmes quase diariamente como fazia meu pai, que sempre assistia um filme no fim do dia, antes de dormir, e de quando tínhamos em casa uma maratona cinematográfica da melhor qualidade.
Enfim, gostaria de começar minha viagem no tempo com a primeira imagem que tenho da infância: Um corpo que cai (Vertigo, 1958) de Alfred Hitchcock, primeiro cineasta pelo qual me apaixonei. Lembro-me dessa noite em que estava em casa e assistimos esse filme. Tenho claramente a imagem de estar deitada no sofá, família reunida,eu no colo de minha mãe e ver o corpo da mulher despencando. Duas vezes.
Abraços e boa vertigem!
L.