Sempre tem algumas imagens, sons, palavras, enfim, memórias sensoriais que não saem da nossa cabeça. Elas vão e voltam e, muitas vezes, não sabemos o motivo, mas são constantes. Já havia escrito sobre uma imagem que me perseguia desde a infância, da mulher loira de Um corpo que cai. Hoje, não sei bem por que razão, trago uma imagem que me segue desde a adolescência, do filme de um dos meus cineastas favoritos, Luchino Visconti: Morte em Veneza (Death in Venice,1971). Sempre carrego a imagem de ruas estreitas de paralelepípedos, além de, impressionada pelo filme, ter sonhado já com tais lugares nunca por mim visitados. Até hoje tenho essas imagens, em tons de azul. Tudo culpa da delicadeza de Visconti ao tratar das paixões, sempre violentas.
É simplesmente incrível a forma que Visconti conduz o filme, baseado na obra do também genial Thomas Mann. Confesso que esse filme mudou alguma coisa na minha maneira de perceber as coisas. Somos totalmente condenados ao saber racional, intelectual, onde as coisas tem que ser explicadas através de frases lógicas. Visconti consegue, através de suas imagens, de seu enquadramento, do tratamento aos personagens, nos trazer um "pensamento sensorial", uma obra que atinge os sentidos de forma exacerbada. Os poucos diálogos do filme, o tom contemplativo do personagem é trazido à cena de forma magistral.
Há pouco li sobre o filme num blog (http://multiplot.wordpress.com/2008/07/17/morte-em-veneza-luchino-visconti-1971-2/) e havia o comentário de um leitor "Visconti quis dizer muito e não disse nada". Penso exatamente o contrário. Um filme que talvez não se proponha a"dizer", mas certamente foi o filme que mais me tocou os sentidos e despertou outras formas de percepção, de relação com o mundo em imagens. O cineasta consegue nos mostrar que nem todo o "dizer" é intelectual, nem todo o "dizer" é apenas racional, que temos sim outros sentidos. É o que eu tenho a dizer: um filme para sentir, e jamais esquecer.
Percebi que não fiz sinopse alguma sobre esse filme, nem do filme de Hitchcock. Acho que não venho com outra intenção senão a de trazer algumas de minhas memórias através de filmes. Por isso esqueço da "história" dos filme, e me fixo mais em suas imagens, sensações. Talvez para tirar um pouco o peso do racional e sentir mais.
Mas fica a dica para ver ou rever essa bela obra de Visconti. Teria tanto pra falar, mas fico por aqui, pois segundo Mann "a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos".
Abraços em Veneza,
L.
Também indico esse artigo sobre o filme: http://www.contracampo.com.br/68/morteemveneza.htm
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